segunda-feira, 27 de abril de 2015

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A coisa toda, é que eu gostava do drama do cansaço. Gostava de ter essa desculpa pra ficar em casa. Me sentia dona do meu nariz. Estava pagando meu aluguel, pagando minhas compras mensais, meus chopps ocasionais. Trabalhava numa empresa renomada, tinha um cargo bom.

Eu estava bem. Mas, como sempre, faltava algo. White ~ fucking ~ girl problems. Eu sei, gente. Tenho uma certa dose de auto-crítica, como já devem ter percebido. A coisa toda é que eu me sentia numa ilha. Brincadeira. Eu me sentia s  o  z  i  n    h     a... { Era nisso que você queria chegar o tempo todo? ... } Bom, e eu me sentia bastante culpada por isso. Sabe, quando você se sente solitária e percebe que quer ficar sozinha pra pensar sobre isso? Solidão alimenta solidão.

Eu costumava dizer que Florianópolis tinha uma coisa um pouco parecida com a ilha de Lost. Eu não sei se são os vários sambaquis espalhadas pela ilha ou mesmo toda a carga de bruxaria que ela carrega - sim, bruxaria, isso mesmo -, mas é como se a ilha te conhecesse. Ela não se esforça pra fazer você amá-la e na maioria das vezes você faz isso logo de cara. Mas ela não tem medo de cuspir em você. Ela quer algo em troca. E você, provavelmente, não sabe o que é. Eu estava buscando isso.

Muitas pessoas me diziam que a Ilha tinha uma carga muito pesada, que Floripa era um lugar de passagem, as pessoas não se sentiam dali e por isso aquele lugar era, muitas vezes, hostil. Você tinha que ser bom com a ilha, e então ela seria boa com você. E eu comecei com o pé direito.

Nunca tive muitas dificuldades pra fazer amizades, sou dessas que tenho amigos muito diferentes entre si e que as pessoas se sentem a vontade pra conversar. Tranquila, é o que costumam dizer. Cheguei e fiz algumas amizades no trabalho. Nos divertíamos muito. Cervejas, pastéis e praias no verão. Vinho e muita comida no inverno.


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domingo, 26 de abril de 2015

o começo

Era sexta, música alta na sala. De repente, percebi fazendo algo que não queria. Abri a geladeira e tirava coisas de dentro. Limões, uma garrafa de vodka, rum, pimentas, algumas frutas quase estragadas. E gelo. Isso, muito gelo. Tinha me esquecido deles. Tudo na bancada. Agora só faltava tirar a geladeira da tomada. Pronto. Ela estava pronta pra ser descongelada. Pois é, sem frost free por aqui.

Cinco amigas e seus respectivos maridos haviam me chamado pruma noite de jogos. Resolvi passar. Seria divertido? Seria divertido. "Nossa, mas como a Bia é independente, né?" Não elas não pensariam isso. Resolvi fingir um compromisso de última hora. Agora todas pensavam que eu estava saindo com alguém. Uma mentira, mas para o bem. Meu bem.

Sem querer soar muito dramática, era assim que andava passando meus fins de semana. Em casa, arranjando desculpas para não sair. "Eu gosto", eu dizia. "Estou acostumada", repetia constantemente pras amigas. Mas a verdade é que não aguentava mais. Eu me conhecia e sabia que estava numa inércia fudida. Eu culpava o cansaço do trabalho, na maior parte do tempo. E a falta de companhia pra fazer as coisas também. TODOS os amigos em relacionamentos, não havia espaço pruma velinha, nem que ela fosse perfumada - rá! "É só sair de casa, só isso." dizia pra mim mesma. Mas não adiantava. Acho que nesse meio tempo, nunca li tanto na vida. O que é um bom lado disso tudo, não acham? Eu acho.

Do que eu precisava? Fazer exercícios físicos. Meditar. Fazer os exercícios de respiração do curso, ao qual investi algumas dilmas. Coisas manuais. Cuidar das minhas plantinhas - ok, isso eu estava fazendo, com uma constância que nem acreditava que teria, inclusive. Todas estavam bem. Sálvia, alecrim, as pimentinhas. E as suculentas. Ok, essas eram fáceis. Eu só não entendia meus manjericões. Nunca conseguia fazer um se manter vivo. E olha que eu sempre me atentava em deixá-los ao sol, molhava constantemente, mantinha o solo fertilizado... Bom, vai entender.

A questão toda era: eu não tinha muito do reclamar. O trabalho me pagava bem, coisa rara. Conseguia viver tranquilamente. Viajava quando queria. Na maioria das vezes pra visitar os pais e os amigos distantes, verdade. E vivia na ilha. "Floripa, eu moro, você visita". Gosto desse adesivo. Era uma mineira na ilha. Uma haule. Não me mandem pra fora, por favor.

Eu odiava, mas amava. Amava o mar ali perto de mim, apesar de não aproveitá-lo tanto quanto poderia. Mineiros amam o mar. Floripa tinha uma vida agitada no verão. Muitos turistas, música na Lagoa, cheia de festinhas. Nunca fui a nenhuma. A única coisa que me tirava do sofá era qualquer pessoa me chamando pra ir no samba do Rancho do Neco. Eu poderia estar morta no sofá, de mais um dia exaustivo em casa fazendo nada, que levantava prontamente pra ir ao Neco. Gostaria de colocar um coraçãozinho aqui agora. Me desculpem por isso. <3 p="">
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(to be continued)




domingo, 5 de abril de 2015

Outro domingo. Nada parece ter mudado desde então. Passei o feriado trancado em casa, junto com alguns livros e um freela que parece não ter fim. Ninguém me chamou pra nada. Ninguém parece ter notado minha existência nessa ilha. Eu, pelo visto, também não notei a existência de ninguém. Aliás, notei sim e logo em seguida me arrependi. Caspita.

Contabilizando 1 filme bom + 1 livro que me fez arrepender de ter mandado mensagem pra tal pessoa. Que poder esse livro, não? E olha só, acabei de descobrir que tem o filme dele: Malu de Bicicleta.

Acho que essa coisa de blog como diário tá meio por fora. Por que eu tô fazendo isso???