Era sexta, música alta na sala. De repente, percebi fazendo algo que não queria. Abri a geladeira e tirava coisas de dentro. Limões, uma garrafa de vodka, rum, pimentas, algumas frutas quase estragadas. E gelo. Isso, muito gelo. Tinha me esquecido deles. Tudo na bancada. Agora só faltava tirar a geladeira da tomada. Pronto. Ela estava pronta pra ser descongelada. Pois é, sem frost free por aqui.
Cinco amigas e seus respectivos maridos haviam me chamado pruma noite de jogos. Resolvi passar. Seria divertido? Seria divertido. "Nossa, mas como a Bia é independente, né?" Não elas não pensariam isso. Resolvi fingir um compromisso de última hora. Agora todas pensavam que eu estava saindo com alguém. Uma mentira, mas para o bem. Meu bem.
Sem querer soar muito dramática, era assim que andava passando meus fins de semana. Em casa, arranjando desculpas para não sair. "Eu gosto", eu dizia. "Estou acostumada", repetia constantemente pras amigas. Mas a verdade é que não aguentava mais. Eu me conhecia e sabia que estava numa inércia fudida. Eu culpava o cansaço do trabalho, na maior parte do tempo. E a falta de companhia pra fazer as coisas também. TODOS os amigos em relacionamentos, não havia espaço pruma velinha, nem que ela fosse perfumada - rá! "É só sair de casa, só isso." dizia pra mim mesma. Mas não adiantava. Acho que nesse meio tempo, nunca li tanto na vida. O que é um bom lado disso tudo, não acham? Eu acho.
Do que eu precisava? Fazer exercícios físicos. Meditar. Fazer os exercícios de respiração do curso, ao qual investi algumas dilmas. Coisas manuais. Cuidar das minhas plantinhas - ok, isso eu estava fazendo, com uma constância que nem acreditava que teria, inclusive. Todas estavam bem. Sálvia, alecrim, as pimentinhas. E as suculentas. Ok, essas eram fáceis. Eu só não entendia meus manjericões. Nunca conseguia fazer um se manter vivo. E olha que eu sempre me atentava em deixá-los ao sol, molhava constantemente, mantinha o solo fertilizado... Bom, vai entender.
A questão toda era: eu não tinha muito do reclamar. O trabalho me pagava bem, coisa rara. Conseguia viver tranquilamente. Viajava quando queria. Na maioria das vezes pra visitar os pais e os amigos distantes, verdade. E vivia na ilha. "Floripa, eu moro, você visita". Gosto desse adesivo. Era uma mineira na ilha. Uma haule. Não me mandem pra fora, por favor.
Eu odiava, mas amava. Amava o mar ali perto de mim, apesar de não aproveitá-lo tanto quanto poderia. Mineiros amam o mar. Floripa tinha uma vida agitada no verão. Muitos turistas, música na Lagoa, cheia de festinhas. Nunca fui a nenhuma. A única coisa que me tirava do sofá era qualquer pessoa me chamando pra ir no samba do Rancho do Neco. Eu poderia estar morta no sofá, de mais um dia exaustivo em casa fazendo nada, que levantava prontamente pra ir ao Neco. Gostaria de colocar um coraçãozinho aqui agora. Me desculpem por isso. <3 p="">
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(to be continued)
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